Barco

Novamente vivo a sensação da fragilidade e da impermanência da vida biológica. Ao tocar o corpo já quase sem vida, mãos frias e sem tônus, de uma amiga querida de minha juventude, lembrei de uma nossa conversa, creio que no início dos anos 80, sobre vida, projetos, filosofia, Émile Zola, Hermann Hesse e outras coisas.
Faço aqui uma homenagem a alguém que batalhou silenciosamente por seus sonhos.

Definitivamente não sou um pragmático. Apesar de ser necessária certa rendição aos processos de sobrevivência material, esse cotidiano prático, cheio de regras, deveres e obrigações rotineiras jamais fez ressonância em minha alma. A vida se consome nesses mil pequenos rituais diários e pouco do que interessa ao espírito se vive de fato.

Tão brevemente se vive — e se desperdiça a vida — nas nonadas de sua superfície, por mais longa ela possa ser. Não sei o que é pior: o excesso de sensatez e praticidade ou a superficialidade das motivações e ambições materiais.

Vendemos a alma por ninharias e bagatelas, iludidos na consumpção pelo gozo das coisas e aparências.
Sofremos pelo que já temos e pelo que ainda não temos; raramente pelo que nos toca de fato o coração.

Sonhei, sonho e luto por um mundo mais pleno e enriquecedor. A mudança real nunca virá de fora. Ela nasce de dentro de cada pessoa. Convivendo e aprendendo com as dores alheias (e com as minhas próprias, óbvio) há tantos anos, retomo hoje minha esperança de ao menos vislumbrar, ainda na existência presente, uma renovação de ares e ideais.

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