“Senhor, ajuda-me a transitar da treva para a luz,
da ilusão para a verdade e da morte para a imortalidade”.
Síntese mágica dos upanichades da Índia Antiga (cerca de 1,5 mil anos antes de Cristo).
A compreensão de mundo, do Outro e de Si Mesmo, possível ao humano médio no mundo, evolui no tempo e no espaço. Um troglodita caçador-coletor de há 20 mil anos certamente tinha menos recursos do que nós para elaborar sua visão de mundo. E quão mais expandida estará nossa compreensão daqui a 2, 5 ou 10 mil anos?
Nossa história no campo hominal data de 200 mil anos, quase nada comparado aos cerca de 5 bilhões de anos de vida planetária. Ou seja, estamos ainda na infância evolutiva da espécie, apesar de nos vangloriarmos com títulos bem mais pretensiosos.
Se podemos transitar das trevas para a luz, como anteviram os upanichades, é porque somos passíveis de mudança e progresso. Trazemos em nós as sementes de todas as virtudes. Quase tudo está em nós, mas em estado potencial ou ainda nos primórdios do desenvolvimento, como um imensurável reservatório de grãos .
A este desenvolvimento pessoal e intransferível Carl Jung denominava individuação. Ou seja, transcender (sem desprezar) a massa e o senso comum (o útero) para nos tornarmos indivíduos. Podemos entender este movimento de transição dentro de uma única existência – o que já seria valiosa aquisição – ou amplificado através do princípio da palingenesia (ou reencarnação). Jung não defendia a tese da reencarnação, mas sua proposição ganha muito maior amplitude e aplicabilidade se acreditamos que o espírito preexiste e sobrevive à vida biológica.
Uma única existência, por mais longa e bem aproveitada seja, seria ainda insuficiente para a transcendência e a totalidade do Ser, como se pode vislumbrar pela lógica das vidas sucessivas. Disto trata, na tradição hindu, a roda do Samsara.
Cada Ser constrói sua jornada evolutiva na medida em que a percorre e na proporção de sua diligência, qual peregrino predestinado ao Bem, à Plenitude e à Realização do Si Mesmo. Sim, o Bem é uma fatalidade evolutiva. E quem compreenda tal périplo à luz das reencarnações sucessivas, sem as amarras e barreiras da percepção unicista e materialista da vida, expande ao infinito as dimensões do tempo, do espaço e das possibilidades, no trabalho que vá realizando sobre si mesmo, nas diferentes etapas da existência, vida após vida, em seu “Pilgrim’s progress”.

O Pilgrim’s Progress diz respeito ao livro homônimo publicado em 1678 por John Bunyan, escritor e estudioso bíblico inglês, traduzido em dezenas de línguas ao longo dos últimos séculos, e simboliza os desafios da peregrinação virtuosa na existência humana, em busca da iluminação pessoal. Jung e vários outros pensadores dos séculos XIX e XX foram influenciados por sua proposta.
Sempre me fascinou a figura do peregrino. Personagens clássicos como o Sidarta, de Hermann Hesse, o Dom Quixote, de Cervantes, e o Santiago, em O Alquimista, de Paulo Coelho, entre tantos outros, falam-me fundo à alma. O peregrino viaja por terras estranhas e longínquas em busca de encontrar-se e realizar-se. Figuradamente, simboliza o espírito imortal em seu Caminho Redentor, como na parábola do filho pródigo.
Somos, portanto, todos, peregrinos aprendizes em constante expansão da consciência, a Caminho da Luz.


Trecho do capítulo sobre a individuação, escrito por Marie-Louise Von Franz, secretária, tradutora e depois analista junguiana, na obra O Homem e Seus Símbolos, de Carl Jung – p. 219-220.
“O verdadeiro processo de individuação — isto é, a harmonização do consciente com o nosso próprio centro interior (o núcleo psíquico) ou Self — em geral começa infligindo uma lesão à personalidade, acompanhada do consequente sofrimento. Esse choque inicial é uma espécie de “apelo”, apesar de nem sempre ser reconhecido como tal. Ao contrário, o ego sente-se tolhido nas suas vontades ou desejos e geralmente projeta essa frustração sobre qualquer objeto exterior. Ou seja, o ego passa a acusar Deus, a situação econômica, o chefe ou o cônjuge como responsáveis por essa frustração”.
“Algumas vezes tudo parece bem externamente, mas no seu íntimo a pessoa está sofrendo de um tédio mortal que torna tudo vazio e sem sentido. Muitos mitos e contos de fadas descrevem simbolicamente esse estágio inicial do processo de individuação, quando conta uma história de um rei que ficou doente ou envelheceu.
Os grãos são símbolos da potencialidade inata imanente aos seres criados. Jesus os utilizou diversas vezes nos Evangelhos com este fim específico, demonstrando a noção de progresso espiritual inerente à sua doutrina.
Em uma de suas parábolas, propõe: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescido, é a maior das hortaliças e faz-se árvore, de tal modo que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos.»
(Mateus 13:31–32)

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O termo upanichade provém do sânscrito, língua ancestral hindu, e representa uma parte das escrituras sagradas da Índia e do Nepal antigos – assim como os diferentes livros do Velho Testamento dos hebreus, escritos em aramaico na sua origem, compõem as Escrituras Antigas dos judeus.
Upanichade significa”sentar-se no chão”, próximo a um mestre espiritual, para receber instrução. Seus textos explicam e expandem os ensinamentos védicos (Vedas), o coração da religião hindu, transmitido por séculos, assim como o Velho Testamento hebreu, pela tradição oral. Há registros de tais ensinamentos desde o século XVI a.C..




