
Quem beber desta água
Terá sede outra vez
No oco desta ânfora perpassa1
A vaga do tempo no qual você pervaga,
Do mundo raso dessa vaga fé,
Do fundo poço de onde você vem…
Sua cerâmica rude contém
Cada vintém, cada oculto antifaz
Aquilo tudo que você fez e faz
Balouçando nas travas do vento
Sem alento nem pudor: imponderada
– Oh Senhor, lamento…
Escolheste a pessoa errada!
O ego titubeia, ancestralizado
Foge de uma para outra prisão
Fora de si, invertido, vil, rejeitado
Refém das ilusões do medo e da paixão.
A mulher desconversa, olha de lado.
Ali na Samaria, sem beira ou batizado:
– Seu primeiro marido fora Gideão,
Rude, grosso, desaforado, machão!
Debulhou-lhe a primavera sem pensar.
O segundo, Elizeu, prestimoso e terno,
Inverno porém, não a chamava de mulher
O terceiro, Eliezer, interesseiro e manipulador
O quarto, Astragor, fraco e indeciso
E o quinto, Narciso, egoísta e indiferente…
A corda desliza pela roldana dos evos
Carregando a baixo2 o balde de madeira
Vazio mas repleto de tudo a que te entregas
Debatendo-se pelo estreito túnel de pedras
Até o funil subterrâneo no veio de Sicar3
Onde os sicários de Esdras4 vieram pernoitar
E deitaram raízes milenares – Que pesar! –
O gemido da subida, contudo, a anima acorda
Mergulhada em Si Mesma, agora mais sabida
Fonte da criação e da vida, em viagem íntima
Ressurge assim infinita e apta a se reconectar
Sem reservas, digna, copta5, sem franzir o cenho:
– Oh Rabboni!! – Quanto Amor lhe tenho!
Onde porém estará o templo
Em que jorra a água viva do Senhor
Capaz de saciar a sede e a fome
De toda mulher, de todo ser, de todo homem
Voraz, vulgo, indigno ou incapaz?
Não será ao meio-dia nem no tempo contumaz
Não será na Samaria, nem em Jerusalém
Na sua igreja nem na minha também
Mas sim, em Espírito e Verdade,
Decerto, no Coração e na Alma,
Sem importar de onde você é
Ou o que você fez. Ou faz!
Ou virá a fazer…
Escolhi Quem tinha que Ser
Vim ao poço de Jacó só para Te encontrar
Ai! Senhor… E há o medo de estar exposto
De ver a luz, de vir à luz, de peito aberto
De encontrar a Sombra de Quem Sou
E eu só posso Ser Quem Sou
Alegre e bem vindo aos jograis do Senhor6
- Avançar sem se deter. ↩︎
- Como locução adverbial para expressar movimento descendente, geralmente em oposição a “de cima a baixo”, escreve-se separadamente. ↩︎
- Cidade da Samaria, onde ficava o poço de Jacó. Era conhecida como a “cidade da falsidade”, no sentido farisaico da palavra. A mulher da Samaria era, de certo modo, vítima da hipocrisia humana ancestral. ↩︎
- Os inimigos (forças que se opõem à restauração e à renovação) da reconstrução do Templo de Jerusalém e que buscam manter o status quo ante. ↩︎
- Faço referência simbólica às mulheres do povo copta cheias de fé e espiritualidade, resiliência e força. ↩︎
- São Francisco de Assis usava essa expressão “jograis do Senhor” em suas pregações. ↩︎



