Poema da Madrugada

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Dizem que quando a tarde cai

Todos os dias no cair da tarde

E mesmo que a noite tarde

Caindo de pouco, sem alarde

Entrementes o Sol já não arde

A esconder-se, assim, covarde

Num giro de Marte

Num eclipse repente 

Num surto demente

Decai um anjo

Do ventre do Céu:

Rafael, Arcanjo, vira o buril

No oco do caule ‘inda verde

Num giro, num giro de Marte

Dizem que quando a noite cai

Todos os dias no cair da noite 

É possível mesmo que caia

Caindo sob o véu de Maia

Entrementes se desnuda e espraia

A mente do Ser num rabo de saia 

Num vento de praia

Num rabo de arraia

Num beco sombrio 

Se apaga o pavio

Pelo sopro do mundo:

Soraia, Medeia, roda a peixeira

De ciúme bravio, cabeleira

Ao vento, num vento de praia

Dizem que quando a noite se esvai

Todas as noites no raiar do dia

E é provável mesmo que se esvaia

Insone, exangue, tacanha 

Entrementes em terras de Espanha

Onde o poço da sombra se abre

Reluz na penumbra esse sabre

Num vento de raio

Num giro de morte

Num beco sombrio

No beijo de um anjo 

Na franja de um rio

Na lâmina posta à raiz

De Rafael e Soraia em meu país

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