
“Com sua maneira ingênua, sempre voltada para a vida cotidiana e ativa, Francisco abraçou a palavra de Jesus sem a menor tentativa de exegese dogmatizante1, sobretudo em seu significado para a vida prática do dia a dia. E, assim, voltou ao preceito da pobreza apostólica com uma compreensão instintiva daquilo que é essencial. Intuiu que a única possibilidade de liberdade interior estava na ausência total de posses e decidiu livrar-se de todos os bens…”
(Francisco de Assis, por Hermann Hesse)
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As idealizações egoicas também equivalem às projeções da Sombra? Ou poderia chamá-las de projeções do superego, a autoimagem idealizada de Eva Pierrakos2? Sim, com efeito, enquanto houver apego e espírito interesseiro, trata-se de uma espécie de projeção. O que pode provocar uma sensação equivocada de empoderamento. Projetar um estado ideal de Ser não equivale a Ser. E este equívoco vem permeado de um orgulho dissimulado. Hoje sou capaz de pressentir uma pessoa assim, presumidamente boa. E lhe tenho compaixão. Porque já fui assim. Pensei ser maior e melhor do que podia ser.
Essa projeção do ego virtuoso mora escondida nos recônditos de cada ser. Poucos a reconhecem, na sombra da falsa modéstia. Há nuances, entretanto, entre o fariseu arrogante, o saduceu presunçoso, o publicano iludido e o gentio ignorante e crédulo. Seja como for, o ideal da virtude e da realização pessoal em nada garantem sua efetividade. Essa autoimagem projetada de si mesmo costuma ser baseada em expectativas irreais ou distorcidas, sobre quem se deveria ser. Projeta-se para o exterior um estereótipo, uma máscara social, escondendo de si próprio e do mundo as vulnerabilidades e fraquezas. E nos tornamos escravos dessa imagem.
Leva-se, de regra, a vida dupla de quem ainda serve a Deus e a Mamon. Só há libertação de fato, como no caso de Francisco de Assis, com o desapego real da imagem projetada, dos interesses personalistas e das possíveis vantagens cobiçadas, diretas ou indiretas, ostensivas ou sutis. Ainda guardamos todos no coração certa dose de orgulho e hipocrisia.
A imitatio Christi de Jung propõe o sacrifício do ego persona em prol do Self, o Eu profundo3. O que ele chamou de transcendência do ego ou individuação. Quem olha para fora, dorme. Quem olha para dentro, desperta. Muito semelhante à proposta genuína de Jesus: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Para ser compreendida em Espírito e Verdade.
Oh raça de víboras!! – clamava João Batista, prenunciando a chegada do Cristo! É importante que cada qual eleja conscientemente o seu Caminho e se responsabilize por ele.
[Faze de mim, Senhor, aquele que compreende e coopera qual a bolota do carvalho, uma silenciosa semente de bençãos na vida do Outro e na minha própria! (Inspirado em Divaldo Franco)]




Blog muito interessante.