
Contemplo o meu não-estar
Olhos nos olhos, céu e areia,
Horizonte aberto, braços no ar
O termo, um deserto, e aleteia1
Colmeia vazia, vozes ao fundo,
O que me há de caber neste mundo?
Vislumbro o meu não-lugar
Olhos dementes, serpente e sereia,
O mastro do meu navio a abraçar
Em volvente manto negro que permeia
A igualar-nos todos, o mar profundo,
O que me há de soltar deste mundo?
Pressinto aflito o meu não-ser
Alma velada, cuja dor mais se alteia,
Quanto mais longes dão-se a saber
Os desvãos e segredos da fina teia
Tecida nas lãs desse retrós fecundo
Onde fia Deus os mistérios do mundo!
Oh! Senhor! Teu sagrado me toca!
O Amor do Ser em mim bombeia,
As vísceras o sabem, cala-se a boca
E ouço cego o doce ruflar das veias,
Sublime retorta em que me refundo,
E donde fio eu meu destino no mundo!
- Aletheia, palavra grega, significa o não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. A manifestação da verdade pura, se isso fosse possível. Uso-a aqui como “desvelamento” (M. Heidegger). ↩︎



