Portuguesa das Sete Saias

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Por parte de mãe, minha ascendência é genuinamente portuguesa. De meu pai, quase. Minha avó materna, oriunda da região nordeste de Portugal, no distrito da Guarda, próximo da fronteira com a Espanha, e meu avô do distrito de Aveiro, ao sul da cidade do Porto, antiga província do Minho. Uma de minhas tias refere, ainda hoje, com orgulho, que sua mãe (minha avó) era “portuguesa das sete saias”, ou seja, da gema, legítima.

Esta expressão, habitual entre os descendentes diretos, diz respeito especialmente às mulheres de Nazaré, uma vila costeira de pescadores, defronte o Atlântico. Usavam-nas (e ainda as usam, em festividades), as mulheres, as tais sete saias longas, sobrepostas, em geral de cores diferentes, para esperar seus homens (namorados, maridos, pais, filhos e amantes) nas pedras da praia.

As sete saias diziam de lendas ligadas ao mar. Eram sete as virtudes ditas cristãs (e também sete os pecados capitais!), os dias da semana, as notas musicais, as cores do arco-íris, as ondas do mar. Sim, sete ondas. A onda sétima havia de ser a onda mais calma, própria para ancorar as canoas.

Esperando, paradas, pregadas na pedra do porto1, as várias camadas também as protegiam do vento, do frio e da maresia. As saias de cima, mais ornamentadas, em geral de caxemira, eram dobradas sobre o peito, a cabeça e os ombros, e as de baixo, mais simples e lisas, claro, cobriam-lhes as coxas e os joelhos, mantendo-as compostas (a tradição da nobre compostura portuguesa).

Nas datas festivas, como nas nossas festas juninas, vestiam sobre as saias um avental acetinado, ricamente bordado a cheio ou em ponto de cruz. Uma blusinha florida completava o figurino, com mangas de renda e golas bordadas, um corpete para alinhar a silhueta e um cachené estampado, típico, de lã, sobre a cabeça e os ombros, num penteado de rolo.

E falando de mulheres de Nazaré, também havia Maria, a da Galileia. E Deus descansou no dia sétimo, o sábado!, final do Gênesis, espírito e matéria (3+4), transição e renovação, introspecção e sabedoria, conexão cósmica. E mais: Jesus propôs perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete. O Caminho para a paz interior: ao esquecer o mal recebido, você quebra o vínculo e se liberta.

E por falar de gente da gema, genuína, essa leva de imigrantes do século XIX, do reino de Portugal, composta por trabalhadores rurais empobrecida e endividada, veio aportar no Brasil, sua antiga colônia, um país naturalmente mestiço e diverso, genuíno pelo avesso, após a abolição da escravatura, em busca de trabalho e apreço. Os papéis estavam invertidos. Uma espécie de redenção ou conjunção dos opostos.

Se o império português e o espanhol se alastraram por quase todo o planeta, no auge da expansão marítima, cabe ao Brasil, a Pátria do Cruzeiro, consolidar o sincretismo, o acolhimento e a amálgama do diverso. E de tão diverso, se faz único: flor amorosa de três raças sofridas que transubstancia o chumbo em ouro e abre seus braços para o mundo. Falta despertar!

  1. Da música Gesubambino, de Chico Buarque. ↩︎

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