
Naquela época, jogávamos futebol nos terrenos baldios ou na rua mesmo, no asfalto quente, com traves que eram tijolos, chinelos ou pedaços de madeira. Dividiam-se os times no par ou ímpar, com os dois melhores jogadores escolhendo seus times vez a vez. Eram os “com camisa” versus os “sem camisa”. Os últimos escolhidos, como sói acontecer, eram compulsoriamente os pernas de pau. A vida estaria cheia deles. A maioria se tornou gente excelente. Iam para a zaga ou para o gol, caso não fosse golzinho livre. Mas todo mundo jogava. Às vezes a contragosto dos craques, mas jogava. Quando o número total de meninos era ímpar, o sobrante ficava no time considerado mais fraco. Era uma humilhação pública, mas não se falava em bullying nem os pais ficavam sabendo. A vergonha era maior que a honestidade. Havia um certo consenso tácito sobre isso. O dono da bola, em geral de capotão fajuto, com as costuras esgarçadas, tinha algumas regalias. Tive essa sorte. Ficava no pelotão intermediário. Era onde me sentia confortável. O campo era riscado no chão com alguma pedra arenosa, destas capazes de marcar o asfalto, e as linhas laterais eram demarcadas pelos paralelepípedos das calçadas. A duração das partidas era no cinco vira, dez acaba. Transcendia o tempo. Ninguém usava relógio. O Brasil era tricampeão do mundo. Os pés rapados não podiam com a gente. Apesar do regime militar que pervagava, sutil, mentes e corações, juiz não havia nem em sonho: era tudo decidido no grito. Ou na porrada. Falta pra valer só era considerada se e somente se a vítima chorasse ou sangrasse de verdade. Não havia espaço para os maricas manifestos. Eles não apareciam ou disfarçavam muito bem. Via de regra jogava-se descalço ou de kichute. Joelhos ralados e dedões sem tampo eram a regra. As meninas da rua assistiam às pelejas de vez em quando. Os craques e os mauricinhos eram motivo de olhares e sorrisos. Mas sabe-se lá de que falavam de fato. Se a bola caísse no quintal do vizinho ranzinza, entrávamos em pânico. Havia o risco real de a bola ser confiscada ou devolvida furada. Aí não tinha jeito: o jogo era interrompido por justa causa e cada um ia pro seu lado. Nas quartas à noite, esporadicamente, éramos pegos de surpresa por cantos, atabaques e rojões num terreiro próximo. Durante a sessão de fogos e cantos, sentávamo-nos na calçada, sentindo um forte cheiro de pólvora. Tudo era festa. Havia ainda as mães que apareciam do nada chamando para tomar banho ou para o jantar, quase sempre com um chinelo ameaçador na mão. Quando encontravam uma conhecida na mesma situação, podia ganhar-se uma prorrogação por conta da prosa. Quando o craque do outro time tinha que ir embora antes do apito final, era uma beleza. A fraqueza do inimigo costuma ser vantajosa. E, por fim, ocasionalmente surgia o tal homem do saco, um ligeira pobre-coitado, a caminho sabe Deus para onde, solitário, que invadia o campinho praguejando e conversando com alguma alma invisível. Por sorte esses ligeiras eram também ligeiros. Pouco se demoravam em seu monólogo ambulante e logo os times podiam retomar a partida. Exceto quando, animados com a plateia perplexa, punham-se a filosofar ou blasfemar. Diziam as más línguas, entretanto – em geral das mães e das comadres –, diziam que estes seres estranhos raptavam as crianças na calada da noite, principalmente as mais peraltas, rebeldes e desobedientes, e assim, maltrapilhos e espertos, sumiam com elas para sempre.
– “Se você não entrar agora, o homem do saco vai te pegar”.
Bem, amigos, lamento dizer-lhes, mas creio que não há muito, já sexagenário, fui finalmente abduzido pelo homem do saco. Fui engolido de volta pela baleia de Jonas. Ou melhor: deixei-me engolir! Ouvi minha vocação: resolvi quebrar as regras e desobedecer às mães e às comadres. Não há mais futebol no asfalto, a rua está deserta e meus pais já se foram. As crianças já não brincam como antes, os adultos não contam mais histórias extraordinárias e o Brasil já não ganha copas.



