
Do século XVII até hoje, como um movimento natural de reação à noite medieval, o pensamento ocidental acolheu, nutriu e fixou na sua cultura, com razoável dose de coerência, um cada vez mais poderoso e fundamentado humanismo agnóstico. O progresso científico incontestável e avassalador dos últimos 150 anos abriu um abismo quase intransponível entre a física e a metafísica. Tudo – ou quase tudo – dispõe de uma explicação lógica, bastante e racional.
O efeito colateral deste movimento é que passamos a viver em tempos extremos, de consolidação e dominância dos valores materialistas, não apenas no sentido capitalista, mas também e principalmente no sentido filosófico, causal, da Vida. Não há mais a oposição platônica entre matéria e pneuma (espírito), entre Ter e Ser. Importa Ter e Parecer. Vale tão somente a satisfação da imagem projetada, da persona egoica. Na prática, Freud, Adler e Jung e todos os pensadores da psicologia profunda estão mortos e enterrados.
Habitamos sem nos darmos conta real a poça rasa do aqui-agora, sem percepção do porvir. Ante pandemias, doenças graves, perdas e sofrimentos de todos os tipos, os discursos se voltam quase sempre ao imediatismo, ao pragmatismo, ao utilitarismo, ao pessimismo sistêmico e à negação, sem esperança ou fé no futuro.
Há poucas semanas atendi a um paciente portador de câncer de pâncreas avançado, com boa formação intelectual, divorciado, baixo suporte social (os dois filhos moram fora do país) e que desatou a chorar quando lhe perguntei sobre quais eram seus laços familiares e religiosos. Pretendia ajudá-lo na elaboração do fim da vida biológica.
– Somos feitos de carbono e água, doutor! – respondeu-me em lágrimas. – Minha mãe tem 90 anos e apenas uma demência leve; e eu, aos 60 anos, um câncer terminal. Esperar o quê? De quem? O que me resta?
Pus-me a lembrar, compadecido ante o silêncio que se instalou, aquilo que há muito pondero: o materialismo prático tem bem pouco a oferecer quando vivenciamos os infortúnios naturais da vida. Rapidamente recorremos aos mecanismos de fuga. Cabe-nos de algum modo atualizar essa visão de mundo distorcida e restaurar os valores espirituais que dignificam e expandem a Vida.




Muito interessante seus textos, nos apresenta uma forma de reflexão sobre a vida como um todo., a forma como cada pessoa enfrenta sua jornada.