Reflexões sobre a Morte

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Numa noite de dezembro, entre incontáveis outros, nestes mais de 40 anos de profissão, assinei mais um atestado de óbito. O de LVA, aos 89.

O contato com um corpo inerte, frio e sem vida me traz sempre e ainda uma impressão marcante. A extinção da vida biológica é muito tocante. Me é inevitável, em tais situações, pensar na própria morte, transpondo-me, como a viver o próprio luto.

Um pensamento novo, porém, me ocorreu: ouço dizer, de regra e há muito, que aquilo que se há de fazer de bom para uma pessoa, se há de fazer em vida. Que depois nada mais importa. Essa crença limitante compõe um cortejo de outras tantas que me parecem ter sido elaboradas um dia para fazer doer a consciência de supostos infratores, como um ato de controle e manipulação emocional sedimentado pelas forças subliminares da teia coletiva.

Como e sobremaneira sempre me afrontam, negativamente, essas incessantes mil regras do ego comum! Algo como um sofisma, uma retórica medieval (obscura) para manter o feudo dominado e “sub judice”.

Penso em pessoas queridas, mais ou menos próximas, cuja vida se arrasta e se consome refém das artimanhas do senso comum, sutilmente internalizadas, lotada de culpas e normas, não por real convicção, mas antes e muito mais pelo jogo de convenções e sutilezas das barganhas pela salvação. Não estou liberto destas amarras, mas seguramente menos sujeito a elas.

Eis, portanto, mais uma ideia pronta a questionar: pode-se sim — e frequentemente o fazemos —, de se ter que enfrentar uma série de conflitos, questionamentos e dramas pessoais após a morte de alguém. Ou seja, a morte não cessa nossa relação com o morto. Pelo contrário, muitas vezes a intensifica. Mesmo que no subconsciente. As portas da reconciliação permanecem abertas. Para quem acredita na sobrevivência do espírito e na reencarnação, a pessoa continua a viver em outra dimensão da vida, e, portanto, a relacionar-se conosco em espírito e verdade. Sempre há, nesta concepção, a possibilidade de interação e sintonia, para o bem e para o mal.

Jesus, todavia, recomendava que nos reconciliássemos com os nossos inimigos enquanto estivéssemos a caminho com ele (Mateus 5: 23-25); e diz isto logo após condenar o hábito ancestral de deixar nossa oferenda no altar do templo, cumprindo com as obrigações materiais da religião mundana.

Eis o sacrifício do cordeiro, hábito entre os hebreus antigos. Mais importante para o indivíduo — não para Jesus! — é o sacrifício do orgulho próprio. Antes do mergulho nas profundezas da morte, convém estar liberto da mortalha egoica.

A presença do Outro, a sua presença física, exige-nos maior empenho de humildade, compreensão, reabilitação e redenção, perante a vida e a própria consciência.

Daí talvez a recomendação do Mestre.

Mesmo em relação ao aspecto da vida corrente, material, em muitas ocasiões os dramas de consciência exigem um trabalho especial sobre o Si Mesmo. Lembrei-me da morte do meu pai, algo inesperada para mim, e sabendo que ele guardava várias decepções comigo, me deixou por muitos anos angustiado. Somente depois de uma conversa franca e emotiva com ele, durante um plantão noturno de UTI, fosse com a sua alma, fosse com a sua memória em mim gravada, consegui finalmente pacificar meu coração. Tal encontro foi espontâneo e terapêutico.

A morte nos assombra. O grande poder reestruturador. Sim, Plutão em Gaia! Afinal, não há renascimento sem morte.

E tal assombração representa colocar-se o indivíduo, deliberadamente, defronte ao imperativo do sacrifício do ego persona. Confrontar a própria finitude, os medos e as questões pendentes ou mal resolvidas. Confrontar o senso comum e seus condicionamentos. Penso que ninguém encontrará a paz, a paz de espírito, sem confrontar a si próprio e transcender o ego tirano.

Nessa linha, pensei na minha morte e na morte de alguém muito querido.  Ficaria eu impassível, jogaria o jogo do ego, fazendo de conta, sempre e de novo?

Felizmente, pela nossa pequenez, não nos é dado conhecer os desígnios de Deus. Vislumbrar a própria morte, ou a morte de alguém amado, imaginando no lugar do corpo de dona LVA, por exemplo, o meu próprio corpo, inerte, frio, sem vida, representa um exercício importante de compreensão da transitoriedade e da finitude da vida biológica. Uma angústia sutil e, de certa maneira, um alívio existencial, libertador, tomaram conta das minhas emoções.

O ego anseia por perenidade e reconhecimento. A alma sabe de si. É preciso deixar ir o velho para vir o novo. A morte tem mil faces e mil foices. Para que tanto apego, tanta obstinação, tanta paixão pelas coisas e crenças passageiras?

A vida cessa a qualquer momento, acidental e inesperadamente, quando não pelos escaninhos da velhice ou da doença, e tudo aquilo pelo que nos esgotamos e sofremos perde o sentido imediato, relativo à nossa presença na vida física.

Aprender a valorizar as horas, os dias, as amizades, os amores, os abraços, os sorrisos, o bem que possamos fazer, mais desapegados dos valores e crenças mundanos, tornam-se oportunidades de grande valor para o espírito.

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