
Sábado tive uma visão profética
O limbo de Salieri minha morada era
Eras antes erguera-se ali um vaticínio
Entre o cínico e o cético, um híbrido
Pária se esquivaria num transe de Ícaro
Era domingo dum verão hermético
Onde a ira e a mentira vendiam afeto
Num leito comum estreito de palha
Dormindo sonhei acordar numa cela
Entre um herético e o santo Amadeus
Moro toda segunda no andar primeiro
Na viela ôntica dos horizontes meus…
Fausto seria o patrocinador secreto
Neste insano faz-de-conta à Goethe
Onde na terça me demoro estésico
Quase o preposto dum poema épico
Herói hereditário da poeira cósmica
Disposto a embrenhar-me portal adentro
Para na quarta deitar-me com Cinira
Embalado na lira duma dama cigana
Que coisa! Nessa melodia estranha
Ao meio-dia de uma obscura trama
Nas ondas duma metamorfose onírica
Qual o tebano esperto Epaminondas
Desbanco, na quinta, as hordas de Esparta:
Táticas oblíquas para práticas iníquas
Saio por cima do ardor da batalha
Donde partem todos os que se lançam
No mar aberto de tudo o que lhes valha…
Na sexta, me apego a meu Drumm
Onde se dá o milagre de eu Ser
O milagre do milagre do Amor
Quando de tudo me perco e desperto
No gueto deserto do porvir errante
Para no devir da embocadura da vida
Na reza impura de um coração aberto
Brotar a rosa dura dum poema concreto:
Sábado tive uma visão profética…



