IN-DE-CISÃO

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Aquele ser aparentemente bom possuía muitas coisas e, entre elas, uma inquietação que a seus dias consumia. Vida reta, obrigações cumpridas, caminhos planejados, certezas de sobra e valores sólidos feito pedras. Ainda assim, uma angústia sutil e persistente o atormentava, em secreto: a de não estar nem ser por inteiro. Esse algo faltante abria em seu coração uma fenda profunda, uma brecha dissimulada, como um ruído de fundo, profano, num culto sagrado, ou um céu em penumbra, encoberto, nublando a paisagem da alma. E assim prosseguia.

Todos o tinham por protótipo. Um ser padrão! Personalidade sólida, esculpida em carrara, de eminente projeção, um sucesso. E de certo modo, pasmem!, isso lhe pesava. A ninguém, porém, confessava a ânsia que portava: – Serei um hipócrita fariseu? Quem sou eu? Não cumpro com minhas obrigações mundanas?? Por que não tenho paz?

Certa feita, à sombra de formosa árvore, cruzou um viajante. Nada havia de ostensivo nele — nenhum sinal de poder, nenhuma promessa evidente. Sua presença suave e, sobretudo, o olhar compassivo, eram de tal ordem que ele sentiu, pela primeira vez, que alguém o compreendia por inteiro — não apenas em suas virtudes e vitórias, em sua retidão e pureza, mas também naquilo que ele mesmo evitava.

— O que me falta? — perguntou, resiliente, o ser ao estrangeiro peregrino, sem muito pensar.

O viajante não respondeu de imediato. Seus olhos postos sobre ele não julgavam, nem suavizavam. Seus modos não condenavam nem absolviam. O ser, contudo, sentia-se tocado nas fibras mais íntimas pela suavidade daquela presença.

— Falta-te aquilo que não podes carregar contigo — disse, por fim, dando dois passos na sua direção e tocando-lhe o ombro esquerdo.

O ser não compreendeu prontamente. Sentiu vontade de o abraçar, mas se conteve. Estava surpreso e atônito.

Ele acumulara até então tudo o que julgava necessário: bens, certezas, valores, costumes, identidade, segurança, respeito social. Tudo aquilo o definia e sustentava. Fazia dele alguém distinto. Ou assim acreditava.

— Deixa, então, o que te prende — continuou o viajante — e segue adiante em tua jornada. Não poderás carregar contigo todas as tuas coisas, crenças e distinções humanas. O essencial para Ser é bagagem de pequeno volume.

Não era uma ordem. Era um convite. Mas um convite que atravessava como um raio poderoso todas as camadas da sua persona através do tempo-espaço existencial.

Naquele instante, o ser percebeu algo que jamais havia percebido: não eram apenas suas posses, crenças e identificações que estavam em jogo, mas o lugar secreto onde ele se apoiava para existir. Se feito Ísis, entreabrisse as portas de seu esconderijo, conexo e sem véu, quem haveria de ser? Como o veriam? O que diriam dele?

— Ai, Senhor do Céu, como é complexo Ser!! — Sentiu, então, uma profunda divisão interior, qual castelo a desmoronar… — Não desejo nem quero perder a paz, a paz dos humanos, a paz das guerras, a paz que desconheço!

— Não te trago, amado Ser, a paz ilusória que almejas, mas a espada que necessitas — completou o peregrino, intuindo com doçura sua alma inquieta. — Para ouvir o Chamado e se colocar definitivamente a Caminho, será necessário dispor daquilo que te atribula a mente e te desassossega o coração.

Uma cisão súbita se apoderou do ser. De um lado, tudo o que conhecia e lhe trazia segurança — o que podia nomear, defender, justificar — e até disputar e guerrear. De outro, algo que não tinha forma, mas que o chamava com uma força silenciosa e absoluta. Não era uma escolha entre “bem” e “mal”, mas entre permanecer como estava e o que poderia, talvez, preenchê-lo, libertá-lo e lhe dar sentido real.

O ser baixou o olhar a mirar as pedras e pedregulhos do caminho. Uma centena de ervas daninhas abeiravam-se da trilha tortuosa. Entardecia. Uma brisa triste do crepúsculo anunciava a sombra da noite. Não lhe faltavam virtudes a desabrochar. Sobrava-lhe medo. Faltava-lhe coragem. Permaneceu estanque por alguns minutos. Minutos que foram décadas. Décadas que são existências. Quão difícil se mostra essa equação entre segurança para estar e liberdade para Ser. E, pela primeira vez, compreendeu que há coisas que se abandonam não porque sejam ruins ou maléficas, mas porque ocupam um lugar que já não lhes pertence.

O viajante nada acrescentou, mantendo sobre o ser olhos de extrema ternura e misericórdia. Não havia argumento capaz de resolver aquela tensão. Não havia explicação que substituísse o passo seguinte. A decisão não era moral nem ética — embora pudesse parecê-lo — era ontológica, existencial, da alma. Seguir significava perder o chão conhecido. Não seguir representava permanecer atormentado. A angústia de quem vive!

O ser hesitou longamente. O viajante anônimo seguiu o Caminho, noite adentro. Difícil há de ser atravessar a escuridão com a candeia alheia. Alguns afirmam que o ser partiu triste, de volta para casa. Outros, que ainda caminha a esmo, perdido. Uns poucos dizem que ele morreu num acidente inesperado.

Mas há quem diga — em voz baixa — que o Chamado nunca cessou. E que o ser embrenhou-se mata adentro de cabeça erguida, coração em brasa e espada em riste, expandindo horizontes…

Em algum ponto da jornada, todo aquele que cruza com o viajante reconhece, com um misto de temor e lucidez: — não é a falta de coisas que impede o ser de prosseguir, mas o excesso de si mesmo.

2 comentários em “IN-DE-CISÃO”

  1. MARIÂNGELA ZULIAN

    Que lindeza!!!
    Que “arrebatamento” corajoso em cada detalhe de palavras tão bem colocadas e livres, fluindo …

    ” difícil há de ser atravessar a escuridão com a candeia alheia”…
    ” e o ser embrenhou-se, mata adentro, de cabeça erguida, coração em brasa e espada em riste, expandindo horizontes…”

    Obrigada por compartilhar seus textos, seus conteúdos tão intensos e tão leves.

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