
Sobre ser / estar disponível e acessível a maior parte do tempo. E, portanto, ser previsível e manipulável, como ferramenta útil de controle para as expectativas alheias.
Quanto mais disponível você for, menos importância terá a sua demanda pessoal. Esta é uma regra quase absoluta. Ser alguém prestativo, servil e conveniente gera empatia no coletivo, mas provoca uma dinâmica de abandono progressivo de Si Mesmo. Poucos sabem respeitar o que não precisam conquistar. A gentileza, a generosidade e o espírito de cooperação, mesmo quando legítimos, tornam-se uma perigosa armadilha para a individuação.
Tornar-se indisponível e guardar silêncio desarma o jogo do abuso, da projeção e da conveniência. E faz as pessoas no entorno olharem para si mesmas. O seu silêncio revela o barulho interno que elas tentam evitar. E então se irritam e te acusam, em novas e reiteradas projeções, sem assumir as próprias dificuldades.
Você está pronto para enfrentar o silêncio que vem depois da ruptura?
Esse silêncio pode ser devastador, pelo sentimento de incompreensão e abandono, mas também traz em si um poder especial. Não o silêncio da passividade, da timidez ou da covardia, mas o silêncio consciente e lúcido. Ele é o solo fértil da transformação interior. Faz as vezes do sábio observador à beira do rio caudaloso da Vida. Ou do barqueiro Vasudeva de Hermann Hesse. Trata-se de observar padrões próprios e alheios, de estar presente como Self (Si Mesmo) e reconhecer a Providência em ação constante. O flow e o Wu Wei.
Ao sair e se calar, você muda as regras do jogo egoico. Dificulta a dominância e a manipulação. A reação não significa saudade nem falta real da sua pessoa, mas, sim, a recusa à perda de controle (o pecado mortal do pragmatismo). E isso desequilibra quem se alimentava da sua ação e da sua disponibilidade. Silêncio não é ausência de voz, mas domínio sobre a própria energia. As pessoas — e também você — hão de aprender a respeitar e conviver com a profundidade do Outro e não com sua utilidade de ocasião (a “equação utilitária” da psicanalista Maria Homem).
Silêncio lúcido não é fuga, mas soberania. É a linguagem subliminar de empoderamento do Self. Ele não busca, em essência, perturbar o Outro — o que pode ocorrer como um efeito colateral —, mas reconstruir o Si e devolver-lhe as rédeas do destino e a energia vital, uma vez que sua existência não mais depende da aprovação e da validação externas. Todo processo de individuação passa pelo isolamento, não o depressivo ou do ressentimento, mas o isolamento sagrado, de aprender a ouvir-se, a respeitar-se e a perdoar-se.
Acusações, críticas, queixas, agressões e cobranças fazem parte do processo de desconstrução da imagem egoica. Como também a dor, a solidão, o medo e a sensação de perda e de culpa. Aliás, pelo contrário, tais ocorrências costumam ser marcadores de que você está no caminho da autorrealização.
A indisponibilidade consciente é o alicerce da autodeterminação para a transcendência. E a transcendência se revela na solidão da presença total, a sua própria presença, o Self-Ego (o Selbst), a presença de quem não mais se abandona.
Eis a síntese da individuação: a força de ser / estar inteiro em Si Mesmo (a totalidade possível), o distanciamento do coletivo (senso comum ou “espírito de época”) e a desidentificação com a persona (e seus poderosos interesses imediatistas).
Tornar-se indisponível é voltar para o Si Mesmo, é parar de ser moldado pelas circunstâncias e pessoas ao redor e a moldar sua realidade a partir de dentro.
Eis o TAO. Isso envolve um trabalhoso e demorado renascimento, não se engane nem se iluda. Não há espaço seguro para concessões. Nem vazios disfarçados, nem jogos mentais, nem melindres ou faz de conta hipócrita. Você será incompreendido, combatido e chantageado, mas ao final será respeitado. Ao menos por Si Mesmo.
Vc se tornará alguém raro, valioso e inesquecível. E terá paz! ☮️
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“Não se deve brincar com o espírito de época (Zeitgeist), porque ele é uma religião, ou melhor ainda, é uma crença ou um credo cuja irracionalidade nada deixa a desejar, e que, ainda por cima, possui a desagradável qualidade de querer que o considerem o critério supremo de toda a verdade e tem a pretensão de ser o detentor único da racionalidade.” C.G. Jung



