A Fornalha

fire 2588770 1280

Aprendi que é na fornalha que o ferro se transforma. Como de Saulo para Paulo, o de Tarso, no deserto de Damasco. Como Tereza de Ávila, a reformadora do Carmelo, com seus pés descalços. Como Viktor Frankl nos campos de concentração nazistas. Ou como no silêncio ativo e não-violento de Gandhi, em busca da Verdade. Ou nos milhares de calvários anônimos que jamais conhecemos.

Aprendi que é no fogo do cadinho que os alquimistas medievais buscavam transformar cobre em ouro. Assim como o fogo do batismo de João, o Batista, a conclamar-nos ao arrependimento, à reavaliação dos caminhos e à tomada de uma nova postura, ou como a fumegante espada de Jesus, com a qual afirmava Ele trazer a divisão, a ruptura com o jeito tradicional e monocromático de pensar, sentir e agir.

É no ardor da batalha que se aprende a lutar e a vencer! Bem como é no fogo do inferno interior que a alma se redime, ou como no mito grego em que Fênix garante a sua imortalidade ressurgindo das próprias cinzas.

No frigir dos ovos é que a manteiga se solta, diz o provérbio. O fogo ardente no altar do coração é que liberta a alma das cupiditas e ilusões do mundo. Para iluminar os homens com o fogo dos deuses, Prometeu cumpriu sua saga sobre o Cáucaso das provações.

Aprendi com os enfermos de toda sorte que é no fogo sagrado do sofrimento bem aproveitado que a dimensão da vida se torna mais transparente, mais sonora, mais palpável, mais compreensível.

O homem é um ser livre para decidir o que fará de si mesmo em face de suas possibilidades, do contexto que se lhe apresenta; nem sempre ele escolhe consciente e livremente os embates que enfrenta, mas tem a liberdade para se posicionar perante eles.

Nem liberdade absoluta nem submissão irrestrita aos determinismos da genética e da vida em sociedade. Há um ponto em que o indivíduo paira, sobrevivente e soberano.

Afirma-se que Deus escreve certo por linhas tortas. As linhas tortas são o fogo dos desafios evolutivos, os que provocam as reflexões e transformações dos conceitos e valores íntimos. Se Deus escreve errado, não há Deus, só o caos e o vazio. Então, pouco importa qualquer argumento. Se escreve certo, entretanto, abençoemos o fogo da luta diária, o calor do buril, a brasa que depura, escolhendo em cada desafio a solução que nos pareça mais apropriada.

Aprendi na fornalha.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *