Bicho de Goiaba

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          A fruteira viva era de uma fruta só. Os pés descalços e sujos, de sola grossa feito lixa, escalavam o tronco liso, procurando as forquilhas e as reentrâncias para se apoiarem. Numa só fruteira embarcavam cinco ou seis pares deles, espertos e céleres em busca da mais gostosa das goiabas. Deus parecia tê-la fincado de propósito no mais alto galho para desafiar os topetudos. O certo era que, mais cedo ou mais tarde, aquele que levava a melhor abocanhava orgulhoso o troféu saboroso da sua destreza. Nada se comparava aos olhares cobiçosos dos derrotados a praguejar em silêncio quase mortal. Comiam secretamente o rebento sublime da goiabeira. Mas o imponderável sempre visita os mais afortunados (e a esperança era a última a morrer). Melhor de tudo era ver a cara de nojo do infeliz vencedor ao morder um daqueles infames bigatinhos. Punha-se a cuspir para longe amalucado as bocadas da pobre fruta como fosse ela culpada por abrigar uma dezena de inocentes larvinhas que ali buscavam sobreviver e se perpetuar. Devia cismar, o nojento, como aquela tão formosa parente do araçá entranhava sem cerimônia toda uma família daqueles seres repelentes e dançarinos. Como a beleza pode acolher assim, no seu ventre, a podridão? Parecia mesmo que aquela sem-vergonha fazia tudo de propósito, só para o tentar. Precisava continuar firme, manter as aparências, a situação sob controle, mas se sentia fraquejar. Estavam, com certeza, ali na palma da sua mão, a goiaba sinistra e seus sequazes requebrantes, mancomunados contra ele, só para o envergonhar diante de todos. Suspeitava de um complô: planejavam desmoralizá-lo e, num golpe de mestre, envenená-lo com sua gosminha asquerosa. Zombavam descaradamente, fechando os olhinhos, franzindo as testas e o apontando com seus minúsculos dedinhos. Como a vida lhe era ingrata! Por mais se esforçasse para convencer o mundo de seu valor, menos era compreendido. E Deus? De há muito o abandonara a si mesmo nos altares dos templos. Ouvia a soma dos risos das outras crianças, em cantigas de deboche. O pomar girava, as pessoas giravam, o céu girava no gira-gira do pensamento. Um arrepio lhe descia pela espinha e o chão oscilava numa gangorra. Escorregava pelo lençol de puro cetim sonhando cair num poço sem fim. Alguém de longe chamava o seu nome. Os bichinhos da goiaba ameaçavam invadir-lhe a cabeça, feito idéias perigosas cavoucando os seus miolos, enlouquecendo-o.

Acordou apavorado e suarento numa crise de pânico e, ao cair em si, parecia já até um adulto.

2 comentários em “Bicho de Goiaba”

  1. Como não amar tais palavras, senti uma tristeza, uma necessidade de desabafo uma saudade; sentimentos que hoje nos povoam com a incerteza do futuro. Sou uma psicóloga frustrada e uma escritora mais ainda…rsrsrs
    Talvez goste tanto de clichês e frases feitas, por me sentir tão medíocre nestas áreas.
    Me sensibilizo com facilidade com quem escreve e que me atinge tão profundamente desta maneira.
    Como adoro clichês, e isso é obvio apenas para mim vou dizer: continue brindando-nos com essas pérolas, que nos dizem tanto e tão apaixonadamente me cativam.

    1. Oi Elô, agradeço seu comentário. As linhas do destino têm nos mantido próximos há anos não é?
      A primeira intenção dos textos deste blog é exatamente tocar as pessoas, mais no coração que no intelecto. E esse toque na alma pode provocar reflexão, saudade, angústia, tristeza… Entretanto, no passo seguinte, ao cair o leitor em Si, possam promover o entendimento da Vida, facilitar a transcendência e consolar a aflição.
      Beijo Elô! Gratidão pelas palavras de estímulo.

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