
Do teatro underground ele se insinua, sorrateiro. No baú das recordações confinadas, chama-se desencanto. Ou nostalgia. Espreita na coxia, dissimulando a invasão da tragicomédia. Clandestinamente ensaia aparições secundárias, travestido no pano de fundo da revolta. Sob a ribalta, esgueira-se feito uma sombra, que é. Na lâmina do próprio-amor ferido, enferruja e corrói.
A meio tempo do espetáculo já mal suporta as pressões íntimas. Ressuma-lhe pelas têmporas o passado em pequenos cristais de amargura e fel. Desnudo de cólera, em arrebatamento impulsivo, irrompe por detrás das cortinas, representa a personagem loucura e se consome em fúria contagiosa. No dominó da sintonia e da invigilância, na comoção da platéia pela encenação avassaladora, o circo ameaça vir abaixo. De súbito contido, transfigura-se em máscara fria e, contemplando o público atônito e melindrado, chora! De joelhos, derrama lágrimas de inconformação e desvario, rancor e conflito. No auge, recalcitra. Teme enlouquecer o hipócrita! Será tudo uma ficção, uma mentira, uma fraude? O mundo conspira contra ele? O enredo secreto torna-se uma idéia fixa, um plano de vida, uma obsessão, um parasita letal!
Tomados por tal germe insidioso, nós, atores do mundo, sentimos um nó no peito, uma nódoa na alma, uma ferida aberta no coração, uma voz que atormenta, um pesadelo recorrente em noite infinda, um filme a se repetir teimosamente…
Como esquecer os males recebidos? Como dominar a honra ferida e a recordação da injúria, pequena ou grande? Que remédio usar contra o vírus do ressentimento e a enfermidade da mágoa?
Bem…, parece certo que cada um se equilibra como pode, com os recursos que possui, no picadeiro da vida. Entre oferecer a cara a tapa e partir desatinado para o revide há uma imensidão de possibilidades.
Imagine agora o capeta! Sim, o capeta!, com chifres, olhos malvados, bafo fumegante, gritando sacanagens e vibrando o tridente…Conseguiu? Agora coloque nele um chapéu de palhaço amarelo com bolinha azuis e ao fundo ouça uma música de circo, aquelas de palhaço. Mudou alguma coisa? Cada um escolhe os artistas e a decoração no palco do viver. Lembrar é uma faculdade. Aprender é uma maneira de recordar.



