
Os grandes ruminantes, animais de pastagem como o boi e o búfalo, têm em comum o ir-e-vir da digestão: engolem, regurgitam, remastigam e tornam a engolir o alimento, vezes incontáveis, pelos meandros de seus estômagos (são vários!). A ruminação é um poderoso processo de triturar e moer.
Remoer o passado é uma variedade de ruminação entre os humanos. Pelo lado positivo, cogitar para entender e ajuizar permite descobrir, aprender, deduzir. Por outro lado, idéias fixas, mágoas, perdas, decepções e medos, quando regurgitados e remoídos, pensados e repensados em refluxo obsessivo, podem levar à indigestão mental.
Remoer o passado deste modo é a melhor maneira de cultivar feridas, tumores e outras enfermidades. De tanto reverberar o pensamento limitante no ziguezague da mente, criam-se o hábito, a conveniência e a acomodação com as toxinas psíquicas.
Remoer o passado congela o tempo e entristece a vida. O passado vive no presente e desconfia do futuro. O filme é sempre o mesmo, as mesmas pessoas, no mesmo lugar, os mesmos sons, os mesmos cheiros, como se estivesse acontecendo agora.
Remoer o passado é também o melhor método para deixar o sapo entalado na garganta (ou preso no estômago). Engolir sapos faz parte do convívio humano. Na saúde, a gente os digere e elimina. O contratempo é a ruminação prolongada, no circuito da vitimização: – “Só eu sei o que estou passando!”
Sem demora, chegam a descrença, a angústia e a depressão.
Para desfazer o ciclo da ruminação, convém desatar o nó do peito. Completar a digestão é uma opção saudável. Quase todo sapo já foi príncipe! Para quebrar o feitiço, faça como a princesa da fábula: acolha-o em sua morada, em sua mesa, em seu quarto e lance sobre ele um novo entendimento. Redescobrir o príncipe ajuda a recuperar o encantamento pela vida.




Sensacional! Lembrei de um conto de Rubem Alves, publicado no livro “Palavras para Desatar Nós”, no qual ele brinca com os sapos que todos nós temos que engolir durante a vida. Faz sentido ruminar, mas só para digerir né. Mas não é fácil.
Um abraço do “filho da Marleni” e “irmão da Martha” que me recomendou seu blog.
Oi Angelo, lembro-me bem de D. Marleni. Mulher nobre, cuja memória trago sempre comigo. Penso que ela esteja bem, uma vez que sei da imortalidade da Vida.
Na minha prática clínica aprendi que muitos desajustes biológicos – que provocam doenças no corpo – provém desta ruminação emocionais em que nos demoramos nas situações conflitivas da Terra. Vale a pena refletir sobre a sugestão do grande Rubem Alves: trabalhar diariamente para quebrar os paradigmas que nos tornam reféns.
Abraço e muito obrigado pelo comentário. Ajude a divulgá-lo, por favor.