
No ritmo desse perigoso relativismo ético, que ora acompanhamos, algumas pessoas parecem destoar. Contemplam com os olhos da alma a alma dos outros. Por óculos invisíveis de raios X, percebem além do óbvio, do verniz, da aparência. No leito do rio, onde o pessimista se queixa da lama, eles abençoam a água que sobrenada. Na peneira em que o vulgo só enxerga o cascalho, eles distinguem as pepitas de ouro. São os paranormais da sensibilidade.
Tais espécimes do gênero humano são conhecidos por denominações diversas: ingênuos, tolos, simplórios, sonhadores, loucos, masoquistas… Sim, masoquistas!, porquê resistem longos anos em relacionamentos difíceis, em situações vexatórias, sob privações acerbas e pressões descabidas, quiçá injustas, com uma cota mínima de reclamações.
Ante os conceitos mundanos vigentes e a predominância das personalidades beligerantes, aparecem como criaturas parvas, covardes ou fracassadas. Perante uma delas, porém, percebe-se a grandeza de seu espírito, a dignidade de sua presença, a modéstia nos gestos, a economia nas palavras e, sobretudo, o olhar em profundidade.
A grave problemática que atravessam só nos chega pela boca de terceiros. Desconhecem a lamúria, o continente onde habitam os insatisfeitos crônicos. Enfrentam diuturnamente as suas provas, sem necessidade das fugas fantásticas, da transferência de responsabilidades ou da revolta envenenada contra tudo e todos, reações tão corriqueiras e normais. São essencialmente mediadoras de conflitos e instrumentos do progresso geral.
Experimente-se, pela imaginação, retirá-las do contexto em que atuam. Exaltados e iludidos, os senhores da situação digladiam-se de um fôlego aniquilando santas oportunidades de harmonia, em nome da justiça, da honra e do poder.
Apreendem o sentido da dor, própria ou alheia, qual o aluno que toma assento, dedicadamente, nos bancos da escola da vida. Aplicam a cartilha da empatia, a pedagogia do desprendimento e o exercício de identificação com o outro, concebendo o mundo à moda dele, sem os filtros perniciosos do preconceito, no mágico fascínio da compaixão.
Muitos avós, pais, irmãos, cônjuges, filhos, amigos, companheiros de trabalho, mais um sem número de anônimos e ilustres desconhecidos, são portadores desse dom e nós nem desconfiávamos…
Talvez até você e eu, em nova madrugada, levantemos os olhos do entendimento para o horizonte, além das sombras passageiras do imediatismo, em busca das terras que já estejam brancas para a ceifa.



