Desapego

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Na vida, tudo passa! Quantas vezes ouvimos esta frase? Ela pode soar repleta de nostalgia ou soluçada de remorso, carregada de cinismo ou sussurrada com desilusão, pode decretar uma lei sábia ou permear a ignorância. Em qualquer hipótese, alude ao que ficou para trás, no tempo e no espaço.

Impérios e dinastias, civilizações e costumes, tesouros e castelos, jazem soterrados no esquecimento. Os desertos eram oceanos, as rochas, magma vulcânico, estrelas ainda fulgurantes extinguiram-se há milênios e o troglodita pré-histórico tornou-se o homo tecnologicus, tudo sob a ação irresistível da lei de renovação das formas.

Assistindo ao vivo a uma partida de futebol, várias vezes vivemos em vão a expectativa do replay de uma jogada. Ele nunca acontece. Ao ouvir uma música no Spotify, ao toque de um botão podemos repeti-la incontáveis vezes. Se uma banda, em exibição ao vivo, bisar uma música, ela jamais será a mesma: terá sempre timbres novos.

Uma fotografia, uma filmagem, uma imagem esculpida, uma biografia de vida, são registros de coisas, pessoas e situações, pelas quais buscamos conservar a lembrança de experiências e emoções vividas. Rebuscar a sensação agradável e perenizar o que é transitório, são, dentro de certos limites, tentativas saudáveis de preservar a cultura e referenciar a vida presente, na construção do futuro.

O tempo é o trilho sobre o qual deslizamos cada uma das vivências e o trem da vida não dá marcha a ré. A impermanência e a mudança são tão óbvias e ameaçadoras que a consciência as ocultam intencionalmente. A cultura materialista, finita e métrica, não pode suportar a transitoriedade das formas perecíveis.  

Assim, na contramão da Natureza, busca o homem obter, reter, fixar e perenizar coisas e bens que são e serão sempre passageiros e transitórios. Em nome da segurança e do controle, recusa-se a sair da zona de conforto. Por tal negação – e temor – ele se ilude e se atormenta, estabelece rotinas obsessivas e adoece; oprimido ou menosprezado, rouba, mata ou morre, perdendo-se nos labirintos das ambições transitivas da posse, da projeção social, da linhagem, da estética ou do poder político, qual Ícaro desventurado pelos abismos da insatisfação.

São antídotos milenares para lhe corrigir as veredas: acumular mais tesouros no Céu do que na Terra, onde as traças e a ferrugem não os corroem, e contemplar em profundidade os lírios do campo e as andorinhas libertas. Porque a cada dia, basta o seu mal.

Na vida, que bom!, tudo se transforma!

1 comentário em “Desapego”

  1. Adriana Maria Saura Vaz

    Desapego. Que texto necessário! E que bom que, em algum momento, num pontinho qualquer dessa vida, percebemos que a única coisa que realmente temos é a efemeridade.

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