
Gestação e parto
A individuação guarda certa analogia com a gestação humana. Após a concepção da psique embrionária, sobrevêm o desenvolvimento, a diferenciação e a expulsão do ventre coletivo. O parto requisita ao ser um laborioso processo de desprendimento do organismo social. E como todo parto à moda antiga, demandará da parturiente e do nascituro esforço e sacrifício, mas também resultará em renovação e luz.
Uma vez fora do organismo coletivo, o indivíduo segue inicialmente jungido a ele, qual o recém-nato no período puerperal, na simbiose materna dos primeiros meses; a pouco e pouco se vai liberando, na sequência da primeira para a segunda infância, desta para a juventude e finalmente para a idade adulta. O sucesso desta trajetória abarca o conceito evangélico do estar no mundo sem ser do mundo, qual seja o de tornar-se um indivíduo o mais livre possível no raio de ação do organismo coletivo, ao mesmo tempo desprendido e partilhando experiências, compartilhando saberes, trabalhando em prol de si próprio, do semelhante e da coletividade, porém com efetiva liberdade e autonomia.
A humanidade está ainda na primeira infância evolutiva. A expansão e o predomínio da raça humana, como a conhecemos, tem cerca de 150 mil anos. Grande número ainda resiste ao instante crucial da libertação, por ignorância, receio ou opressão externa. Outros mantém-se semilibertos, mais ou menos atrelados aos cordões umbilicais. Alguns poucos apenas, mais destemidos, partem ousados na aventura da trajetória pessoal. No futuro haveremos de formar uma comunidade de indivíduos diferenciados e lúcidos capazes de conviver em sinergia para o bem geral, distantes no tempo desta coletividade oprimida, adequada ou conformada pelos interesses padronizados.
O conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc., seja em que cultura for, mesmo sob o pretexto da proteção, tende a restringir o voo do espírito.
– Fora das paredes desta casa, só encontrarás decepções e lágrimas – dirá o pai à filha adolescente.
– Fora das verdades que aqui aprendeste, não haverá salvação para tua alma – dirá o mestre religioso a seu discípulo.
– Fora das leis científicas modernas, só encontrarás a falsidade e o embuste – dirá a cientista a seu pupilo.
A libertação real para empoderar o eu profundo, o Si mesmo, no comando da nau, desatrelado dos apegos, coações, costumes, valores e convenções temporais, uma vez deflagrada será sempre relativa – pois que o sentido da vida depende da interação consciente com o organismo terrestre – , mas esta liberdade terá amplitude crescente e proporcional ao esforço individual. O alcance e a velocidade da individuação dependerão da liberdade consciencial e da apropriação lúcida da responsabilidade pelos erros e acertos, sem transferências, recalques e ficções.
Cada indivíduo tem seus temas ocultos, seus segredos, suas idiossincrasias, pendências e vulnerabilidades, e é exatamente isto que o faz humano e, de certo modo, o identifica em seu contexto. Negá-los, omiti-los ou projetá-los nos outros só distancia o ser de si mesmo.
Conhece-te a ti mesmo, recomendou Sócrates. Tudo o que observar em si próprio, em processo paciente e constante, por mais desgastante lhe pareça, representa o trabalho de resgate dos conteúdos imersos na sombra da psique para a luz da consciência. Sem a conscientização da sombra e sua assimilação lúcida, não há individuação possível.
Ante cada fímbria levantada do véu de Ísis, lutará o ego com unhas e dentes para permanecer no controle da psique. Comparo a persona, ou o complexo ego-persona, a um primeiro ministro afeito à politicagem, há milênios mandatário do poder, em uma monarquia parlamentarista, cujo rei, o self, seja ainda um príncipe infante figurativo relegado a segundo plano.
Enquanto predomine a dialética egocêntrica, qual couraça protetora, o acesso mais estreito à natureza espiritual estará limitado. Uma vez que a ninguém convém servir a dois senhores, o resultado salutar deste porfiado e intransferível confronto será o enfraquecimento deste primeiro ministro despótico e a transferência do governo geral para o rei de direito, o eu profundo, o self.


