Capítulo 1 – O Traçado Vital (II)

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O rio da vida

Aquele que olha para fora sonha. O que olha para dentro, acorda. Cumpre a cada ser humano, ao longo da vida, descobrir-se como indivíduo e viver o seu propósito específico no mundo – processo que Jung denominou individuação. Tal movimento se subordina a três requisitos básicos: transcender a persona, a máscara talhada para o convívio em sociedade, conferir primazia ao self, o eu profundo, e confrontar positivamente os padrões estabelecidos, expandindo a compreensão do mundo e das coisas. Por esta iniciativa voluntária cabe a cada ser distinguir a sua vida da vida tribal e as suas necessidades específicas dos condicionantes coletivos e ambientais, via de regra moldados às expectativas e exigências sociais.

A cientista polonesa Marie Sklodowska Curie (1867-1934), primeira cientista e única mulher a ser laureada com o Prêmio Nobel duas vezes, conduziu pesquisas pioneiras e revolucionárias sobre radioatividade. Nascida em Varsóvia, à época submetida ao Império Russo, viveu a infância em regime de lutas separatistas, privação material, circulação restrita e limitado acesso aos estudos. O pai, professor de física e matemática, seu grande inspirador, completou como pôde a formação das filhas. A mãe, fragilizada por grave tuberculose, morreu quando Marie contava 10 anos. Algum tempo depois, por conta de uma depressão, ela e a irmã mudaram-se para o interior da Polônia, onde permaneceram quase 2 anos aos cuidados de familiares.

A despeito das dificuldades, em 1882 retornam ambas a Varsóvia, retomando os estudos e o convívio com o pai. Aos 18 anos, Marie completa o curso secundário com grande distinção. Adere ao positivismo científico de Auguste Comte, trabalha como governanta e participa da educação clandestina das famílias polonesas. O curso superior era um luxo proibido às mulheres pelo império czarista. Desafiando as autoridades russas, Marie e a irmã inscrevem-se em uma universidade volante bancada pelo movimento separatista polonês. Em novembro de 1891, aos 24 anos, Marie parte para Paris, ingressando na Faculdade de Ciências Físicas e Matemáticas. Em 1897 conclui o doutorado na Sorbonne. Em 1903, aos 36 anos, recebe o primeiro prêmio Nobel em parceria com seu marido, Pierre Curie.

De modo bastante razoável todos entenderíamos se aquela garota órfã, apartada do pai e da cidade natal, subjugada pelo ambiente hostil da dominação estrangeira, decidisse aceitar resignadamente o seu destino e manter-se escondida e segura em alguma aldeia erma dos rincões poloneses. Seria o lógico, o garantido, o sensato. Mas seu coração houvera de estar inquieto, insatisfeito, sequioso, feito o Sidarta de Hesse, pois que ela rompeu com o óbvio e partiu de volta para Varsóvia.

A propósito, há tempos atendi uma mulher na casa dos 50 anos, em processo litigioso e arrastado de divórcio, com problemas clínicos pouco expressivos e profunda melancolia. Veio acompanhada pela mãe, octogenária, matrona italiana, distinta, penteado à moda dos anos 60, vestindo um tailleur marinho. Discreta nos modos, após os cumprimentos iniciais permaneceu calada durante toda a entrevista com a filha. Findo o exame físico – a sala tem dois ambientes – , retornei para as anotações enquanto a paciente se vestia.

– Sabe doutor – disse a senhora em tom reservado – , sou de família católica tradicional e há 3 meses comemorei 60 anos de casada, bodas de diamante. Meus filhos providenciaram uma festa digna, missa especial, buffet com familiares queridos e amigos de muitos anos. O maior presente – e também a mais grata surpresa – me veio no momento da troca das alianças, da renovação dos votos. Meu marido, com ternura desconhecida, na frente de todo o mundo, abraçou-me pela primeira vez da maneira como eu sempre sonhei ser abraçada. Fiquei sem ação. Homem rude e ensimesmado, tratou-me toda a vida como um ornamento da casa, um bibelô qualquer, sem jamais dirigir-me um elogio, ou um olhar carinhoso, ou de reconhecimento, sequer um afago espontâneo ou alguns minutos de atenção exclusiva.

Fizemos ambos silêncio, enquanto a filha se ajeitava na cadeira ao seu lado.

– Pensei incontáveis vezes em desistir, abandonar o barco… Mas lembrava-me então da advertência de meu saudoso pai de que os ratos são sempre os primeiros a abandonar o navio naufragando. Além disso, quis manter a família agregada, desejei que meus três filhos resguardassem a recordação do pai, que desfrutassem de sua proteção, e me mantive no meu posto, a um custo que sei muito bem estimar.  

A esta altura, a filha abaixara a cabeça, de olhos marejados, como também haviam de estar os meus.

– Eis que, numa última réstia de consolação, este coração desalentado colheu o fruto tão demoradamente amanhado. Meu esposo não disse palavra – creio mesmo que não possua esse dom – , mas abraçou-me demoradamente, ternamente, na linguagem universal que só os corpos sabem usar.

Finalizei as orientações médicas necessárias à paciente, sem tecer comentário ao emocionante testemunho. Parecia de certo modo lamentar o fato de que a filha dificilmente viveria a grandeza de sua experiência. Provavelmente os seus desafios fossem outros. Jamais as reencontrei. O aprendizado entretanto fora significativo para mim, como um beneficiário fortuito daquele breve e intenso encontro: persistir no ideal e resistir aos apelos reiterados e imediatistas do ego me lembrara, de algum modo, a atitude não habitual da jovem Marie Sklodowska, pois que a senhora rompeu com o óbvio e resistiu firme no leme de sua nau.

Muitos anseiam por mudanças, de muitas formas as buscam, em geral movidos por modismos, pela ansiedade, pela insatisfação, pela insaciabilidade do hedonismo contemporâneo, pelo vazio existencial ou por forças íntimas desconhecidas. Estas últimas interessam mais à individuação, têm mais chances de propiciá-la, pois que brotam de necessidades e interesses mais profundos, quase espontaneamente, a partir de uma saturação progressiva da rotina mecanizada. Quando algum paciente relata estar “cansado” ou “enfastiado” de sua situação, de sua vida, penso que se abriu uma janela de oportunidade para acessar o self.

Sempre há porém o grande risco de constituírem, tais anseios, apenas jogo de cena do ego, no geral rico de intenções, planos e teorias, mas que afetam tão somente a máscara de manifestação no mundo. Seguindo o estigma dos sepulcros caiados por fora, turvam a superfície da psique sem atingir-lhe o fundo. Pessoas há incontáveis que abandonam a família, reconfiguram o corpo, a pele, o rosto, mudam de hábitos, de parceiro, de profissão, de residência, de cidade, de país, de religião, de sexo etc., sem encontrar a paz, a completude ou o êxito desejado.

Manter contato consigo, para além da superfície, do mundo relacional, permite a conscientização dos interesses reais do espírito, a despeito de para que lado pendam as demandas externas. A conscientização e a valorização progressivas dessas pretensões íntimas, especiais, espirituais, não egoicas, definirão passo a passo os rumos da existência. Perceber, entender e atender, o quanto possível, a tais necessidades, constitui a chave para o traçado vital.  

Dentre as muitas maneiras para navegar-se o rio da vida, encontramos o passageiro distraído, o pirata, o almirante, o escravo da galé e, dentre tantos outros, o condutor lúcido. Seguir o traçado vital corresponde a confrontar suas águas calmas ou turvas, as vazantes, as enchentes e intempéries, como timoneiro diligente da embarcação, atento aos sinais, às vozes, aos silêncios, às ondulações.

O desafio de cada ser é viver verdadeiramente aquilo que sentiu e reconheceu ser o traçado de sua vida individual, atento às vozes de sua alma. Convém às vezes sair à chuva para molhar-se, abandonar a furna, o lugar-comum, aventurar-se fora da zona de conforto, da fria engrenagem da rotina, das crenças cristalizadas, das imposições egoicas, subindo ao tablado da vida e confrontando-se positivamente.

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