
O traçado vital
A educação e a cultura ocidentais vigentes coroaram um modo de ser robotizado, inseguro, exclusivista, cartesiano, desconfiado da religião (com a qual costuma manter relações farisaicas), controlador, neurotizado, atoleimado em informações redundantes e focado na satisfação dos interesses imediatos. Este é o protótipo do paciente com quem me deparo na clínica diária e na vida em geral. Como esperar que este indivíduo – que de regra negará tais adjetivos – olhe para dentro, mergulhe na busca de si mesmo e ouça sua voz interior?
A baixa de intensidade vital, a perda sensível da libido e ainda uma impetuosidade excessiva indicam que o traçado vital foi abandonado e que deveria iniciar-se um novo rumo. Basta confiar ao inconsciente o encontro de uma nova linha, afirma Jung. Ora, não são todos sintomas recorrentes oriundos da vida moderna? A baixa intensidade vital traduzida no humor deprimido, no desencanto e na falta de energia e ânimo; a perda sensível da libido manifesta no desinteresse e na disfunção sexual; e, por fim, a impetuosidade excessiva observada nos comportamentos agressivos, ambiciosos, ansiosos e de excessivo controle do cotidiano.
Todos seriam, por esta linha de entendimento, sinais de abandono do traçado vital, de frustração crônica e subconsciente, de insatisfação, fastio e desesperança, por viver-se apenas a vida horizontal, sem aprofundamento nas áreas de interesse do espírito, reagente às demandas, normas e expectativas coletivas ou egocêntricas, desconectada daquilo que de fato deseja, necessita e sente o eu profundo.
O espírito humano aspira pela perenidade, pelo caminho do meio, da harmonia e da paz. Cuidemos de questionar as ilusões e desilusões da persona. Civilizações inteiras estão soterradas e esquecidas. A esfinge de Gizé, construída há 2.500 anos para perenizar a imagem do faraó, está toda carcomida pelas areias do deserto. O tempo vence tudo o que seja transitório. Onde então apostarei minhas fichas, onde haverei de ajuntar os meus tesouros? – perguntará o ego semidesperto. Ajuntai-os no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consomem e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração.
No trânsito pela vida, ao valorizarmos as diretrizes que nos brotam da alma, maior a probabilidade de palmilhar os tão almejados caminhos triunfantes da alegria e da paz de espírito. Um verso antigo entoa: Senhor, ajuda-me a transitar das trevas para a luz, da mentira para a verdade e da morte para imortalidade. Como o Sidarta arrebatado no bosque de Jetavana, aprendamos a suplicar: – Ajuda-me Senhor a encontrar-me Comigo, a trilhar o caminho daquele que verdadeiramente Sou.



