Capítulo 1 – O Traçado Vital (I)

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“A baixa de intensidade vital, a perda sensível da libido e ainda uma impetuosidade excessiva indicam que o traçado vital foi abandonado e que deveria iniciar-se um novo rumo”

 Carlos Gustavo Jung – O Eu e o Inconsciente – volume 7/2, p. 166.

Concordo com a tese de que os loucos e os poetas representam os espíritos livres, visionários e sonhadores.

Milhares de pessoas vislumbram os céus, a cada noite, por diferentes motivos, desde os primórdios da Humanidade. Alguns loucos extemporâneos, em passado remoto, ao contemplar demoradamente certas constelações, imaginaram formas de animais debruçados sobre a abóbada celeste: peixes, touro, câncer, capricórnio, escorpião, leão e outros que tais, dando origem ao conceito de zodíaco. Muitos olham, mas alguns poucos estão de fato preparados para ver. Sempre se pode sentir ou compreender as coisas de um modo diferente, mais abrangente ou aprofundado. Os limites estão dentro de quem avalia.

Diz-se que a letra mata e o espírito vivifica. O sentido literal da vida apequena o espírito; o rigor da forma o aprisiona. Daí a importância do símbolo e da alegoria como linguagens que tocam a alma. Li em minha juventude um livro marcante1, que ora apresento para o caro leitor. Narra ele em prosa admirável a história de Sidarta, um jovem de família tradicional hindu, milimetricamente encaixado nos preceitos e expectativas dos cânones locais, fosse pelo porte físico, pela inteligência fina, pelo respeito ao padrão familiar, pelo domínio dos rituais ou pela correção dos gestos na vida social. Todos o amavam e admiravam.

Mas a si mesmo, Sidarta não se dava alegria. O desassossego do coração invadia-o, vindo da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do Rigveda, dos ensinamentos dos brâmanes anciãos.

Para Govinda, amigo dileto e escudeiro fiel, Sidarta jamais seria um indolente oficial de templo, nem ganancioso mercador de fórmulas mágicas, nem orador vaidoso e vazio, nem tampouco sacerdote perverso. Adivinhava-lhe, nas entrelinhas, a alma inquieta e vigorosa.

Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranquilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-lhe. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado.

Como encontrar pois a paz e a plenitude? Ninguém ali parecia haver-se apropriado delas, detendo-as no imo do ser, nem o pai, nem os mestres, nem os anciãos, nem tampouco os servos ou os párias; também não estavam nos tratados ancestrais, nos sagrados cânticos ou nas imolações repetidas. O pai, aliás, homem nobre, digno e sábio, cumpridor fiel dos deveres e costumes, levaria de fato uma existência feliz? Encontrara em seu coração a nascente do saber ou, quiçá, no silêncio de sua alma generosa, já houvera desistido?

Sidarta decide então abandonar a província natal em prol de sua busca pessoal, acompanhado espontaneamente por Govinda. No dia seguinte seguiriam selva adentro um grupo de andarilhos ascetas, de passagem pelo povoado.

Após três anos de penitências, privações e aprendizados passados junto aos rudes samanas, rumam os amigos para Shravasti, na fronteira com o Nepal, aos pés do Himalaia, onde ouviram dizer demorava-se o Buda, o Desperto. Lá chegados, ao cair pachorrento daquela tarde outonal, acampam junto ao bosque de Jetavana, onde conglomeravam-se algumas dezenas de peregrinos e monges. Govinda entretém-se prontamente junto ao grupo, comovido e encantado. Sidarta recolhe-se, em meditação. Na mesma noite, adentra a floresta de coração opresso e solitário, perpassando sua sombra sinuosa por entre as sequoias ancestrais. Absorto, recosta-se ensimesmado a lenho acolhedor. Desperta, em breve tempo, pela aproximação de passos suaves na ramagem orvalhada. Veneranda figura posta-se silenciosa diante dele. Sidarta a reconhece de pronto. Estava diante do Sidarta Gautama, o príncipe sakyamuni, estabelecendo-se entre ambos definitiva sintonia. Trocam palavras e impressões, olhares e sentimentos.

Ao amanhecer, Govinda considera finda sua romagem. Encontrara seu destino. Despedem-se, comovidos. Sidarta prosseguiria sozinho. Cria profundamente na grandeza e honestidade do venerando sábio, mas descria no absoluto das doutrinas e seitas. Tornar-se-ia livre apenas aquele capaz de libertar. O salto para dentro não podia ser compreendido senão pela vivência.


  1. Sidarta, de Hermann Hesse. Os trechos em itálico são transcrições literais. ↩︎

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